Em nome do pai
Se você é sensível, e fica mal com histórias tristes, por favor não leia essa. É para seu próprio bem, e também para o meu, pois, minha intenção, obviamente, não foi a de botar ninguém para baixo.
Fora mãe solteira e adolescente de um menino
E a alegria que a maternidade lhe proporcionava, ainda hoje, eu não posso saber
Só imaginar
Era quase o golpe militar, mas ela não se intimidou
Foi trabalhar em teatro, dançarina, dizem que era vedete
Morou em Copabanana nos anos 60
Num pequeno apartamento bem decorado
Ela tinha a coleção dos Impressionistas
E a Biografia De Henry de Toulouse Lautrec
Conquistou um músico da companhia
Fez com que ele se casasse e, a ela e seu filho, desse seu nome
Ela era jovem e linda
Sabia, como poucos, seduzir pessoas
Através de palavras bem escolhidas e dos gestos teatrais
Também é claro, pelo sorriso, pelo olhar, pela voz
Seu sorriso era lindo, seu olhar arrebatador,
A voz, algo entre o grave e o macio
Ela tinha muita malícia
Sabia usar seus instrumentos
Impressionantemente, driblava o preconceitos dos outros
Contruía sua própria moral
Após vários anos e enganos, nasceu-lhe, como queria, uma menina
Diferente de outros rebentos, este vingara
Deu-lhe nome de estrela
Ela era linda, como a mãe
Mas não era mais dançarina, agora ela era telefonista
Nunca mais morou em Copacabana
Instalou-se na zona oeste
Se preparava para os anos oitenta
Tinha agora, mais de trinta,
Seu companheiro de erros, por querer acertar, trocou-lhe por outra
Essa outra não tinha um pingo da sua dramaticidade
Por outro lado, oferecia tranquilidade e também passividade
Furiosa e um pouco triste achou que poderia construir tudo de novo
E arquitetava a construção
fazendo comida e chorando sobre o fogão
Outro homem (qualquer outro) ou nenhum
Tinha aos filhos
E a ela mesmo
Foi quando
Levou o pior golpe, penso eu, que a vida pode dar em alguém
Seu primogênito
Morrera, de repente
Cruelmente
.....
Nossa valente e destemida Heroína
Se tivesse juízo,
Teria-o perdido
Se dinheiro possuisse,teria-o queimado
Se bons amigos cultivasse, tería-os abandonado
A dor que ela sentia
Se fosse só dor...
Havia também o remórcio e a raiva
A dor, a culpa e a raiva
São, rato, cupim, barata
Roeram tudo que a essa infeliz restava
Roeram sua fé
Sua esperança
Seu sorriso
Seu olhar
Sua voz
Seu bom gosto
Sua moral
Ela bebia e tomava remédios
Sua filha não a suportava mais e
Fazia força para esquecer a própria mãe
E ela foi destruindo as únicas coisas que possuia
E fazendo novas escolhas desatrosas
Frenqüentava hospitais públicos
Precisava de remédios para seu pulmão possuído por bactérias.
E casas de saúde mental
Precisava de bolinhas para continuar...
Duas décadas se passaram
Dá para acereditar?
Sobrevivera;
Ela hoje é uma senhora
E sua filhinha de outrora
também já é senhora
E essa triste e forte história
Continuará(talvez)em outra hora.
sexta-feira, agosto 04, 2006
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2 comentários:
Legal. Gosto de estórias em que mulheres sedutoras e malvadinhas acabam se dando mal. Desculpe a falta de escrúpulo. Ela merecia se dar mal, pois, "fazia a sua própria moral".
Abraço,
Rbr
Quem é?
Pois é, né, perder filhos tá ficando cada vez mais normal... ela perdeu o dela numa época em que não devia ser tão normal isso acontecer com brancos, mas, bom, sei lá... acho que um dia as pessoas não vão mais se afastar de gente que perdeu filhos com aquele argumento - honesto mas escrotíssimo - de que "ai, meu deus, isso é tão horrível que eu não quero nem lembrar que existe"...
Cada vez mais eu acho que a minha família é todo mundo, humanos e não-humanos, e que os humanos merecem se dar mal sim, porque são parasitas irresponsáveis que fazem do mundo um inferno... alguns até tentam umas solucões individuais, tipo criar ilhazinhas familiares de carinho e felicidade, mas isso não tá mais dando certo...
Beijos... sei lá se eu deveria dizer "desculpe o amargor" - não sei mesmo.
Edrx/Z.
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