O que Stella sempre soube do avô é que ele morava em outro Estado e que ha muito tempo, deixara sua vó com três filhos pequenos, e nunca mais voltara.
Stella acostumou-se a, como todos os primos, chamar de avô o homem estremamente severo que casara com sua avó Isaura. Ele, em nada se parecia com Stella: Era moreno. Tinha um bigode que ela considerava, não familiar, mas, totalmente alheio. Seu Rogério não era carinhoso. Era quase impessoal: parecia o gerente da casa. Sua preocupação era manter a ordem do estabelecimento. Todos o respeitavam naquela lugar. Do mais novo ao mais velho. Os cachorros e os papagaios da vó Isaura alardeavam a chegada de Seu Rogério para, em seguida, emudecerem, e as crianças... Cada uma "tomava seu posto"; o que ria, tornava-se sério, a que estava deitada no sofá, imediatamente sentava, a empregada que via novela na sala, corria para a cozinha para lava louça. Stella não se conformava com isso. Certa vez, segurando um gatinho no colo, ao ver o avô se aproximar, continuou a afagar o bichano.
_Ponha o gato no chão, disse ele.
_Mas porque? Indagou Stella, esperando uma resposta que o valesse.
_Voces acham que podem fazer tudo, não se comportam! Na casa de voces não deve ser essa bagunça que fazem aqui.
Verdade seja dita: de todas as crianças daquela casa, Stella era a mais ousada. Não fosse o fato de ter ficado mais velha, e de ter, simplesmente, "abandonado" a casa da vó, um dia, com certeza, ela teria disparado contra ele, perguntas e ou respostas capazes de quebrar aquela ditadura, ou ao menos, pôr em questão o ditador.
Sua avó ia visitá-la às vezes, mas Stella não voltava lá, ela perdera o interesse de ir a casa onde passara tantos momentos de sua infância e até de sua adolescência. Não só perdera o interesse como desenvolvera uma espécie de rejeição a tudo e a todos que estivessem relacionados àquele sistema da casa de vó Isaura.
Vó Isaura morreu e quando Stella lá voltou , encontrou seu avô, outrora tão imponente, quase demente. Inacreditável! Aquilo era Inacreditável para ela: Seu Rogério era quase um boneco na mãos dos que ali ficaram. Ele morreu pouco tempo depois. Um ano talvez, talvez mais. Ela não se sentiu bem,. Teve pena.
Dez anos depois, Stella lembrou-se do avô. Não de Seu Rogério (este nunca saíra de sua memória) mas de seu avô verdadeiro, Jerônimo que, ha mais de cinqüenta anos, abandonara sua avó, indo morar em outra região. Não acompanhou o crescimento dos filhos, não conheceu os netos. Estaria ele vivo? perguntava-se
Sim! Foi o que contara prima Rita na ocasião de seu aniversário de vinte e nove anos.
No ano passado Rita Figueira pegara um avião e fora conhecer o desconhecido, cujo sobrenome, era o único que lhe indicava a origem. Segundo ela, o avô era meigo e carinhoso.
_ Mas prima, perguntou Stella, voce não acha que ele pode ser a chave para desvendarmos um segredo, no mínimo, muito delicado? Veja bem: Mesmo que fosse hoje em dia, em que os casamentos já não duram mesmo, seria estranho que, um homem de bem, deixasse esposa e três filhos pequenos, e não mais voltasse para vê-los. Agora voce imagine esse fato, ocorrido em meados de 1950? Voce não acha que isso constitui um fato que não podemos ignorar?
_ Sim prima, respondeu a meiga Rita, mas o que ficou no passado não devemos "futucar". Se temos um avô, devemos aproveitá-lo como ele é.
Rita sempre fora mais passiva que Stella e menos questionadora também.
Stella gostaria de conhecer o avô. Soube que seus olhos eram verdes como os dela. E seu comportamento e personalidade poderiam também guardar alguma semelhança
com os dele. O problema era que: Tendo ele feito o que fez, ou sua avó aprontara alguma muito grave, ou ele teria sido um irresponsável inconseqüente. Se ele o fora, continuava sendo, pois vivo, nunca voltara para reparar, ou sequer conhecer, os males que indiretamernte causara a toda a família Figueira, que ali ficou e seguiu errando até não sei que geração.
domingo, agosto 06, 2006
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2 comentários:
Esse já está muito mais bem escrito que o anterior. Fiquei curioso para conhecer o final. Que será que essa vovó aprontou para espantar o vovô tão bondoso?
Abraço,
Rbr
Esse já está muito mais bem escrito que o anterior.
Fiquei curioso para conhecer o final. Que será que a vovó aprontou para espantar o vovô tão bondoso?
Abraço,
Rbr
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